Resultados de busca
João Eduardo Moraes de Melo
2026 chega com alerta vermelho: o que (não) temos a comemorar no trânsito brasileiro
Por Notícias
Chegamos a mais um fim de ano e, no trânsito, a pergunta que deveria guiar qualquer balanço público é simples: estamos salvando vidas? Infelizmente, os sinais mais recentes indicam que não — e que o Brasil entra em 2026 com alerta vermelho, tanto pela persistência (e crescimento) das mortes e lesões quanto pela tentação de respostas fáceis, “populares” e pouco baseadas em evidências.
O balanço das ruas: menos mortes e lesões? Não é o que os números indicam
Levantamentos nacionais apontam que o país voltou a registrar alta nas mortes no trânsito, com mais de 36 mil óbitos em 2024, mantendo uma trajetória preocupante. Nas rodovias federais, a PRF também registrou milhares de mortos e dezenas de milhares de feridos, mostrando que a violência viária segue sendo uma tragédia cotidiana no Brasil.
O Brasil tem plano. O problema é executar.
O PNATRANS estabelece a meta correta de reduzir em pelo menos 50% as mortes e lesões no trânsito em uma década. O drama é que plano sem execução vira retórica. Sem metas territoriais, recursos vinculados, monitoramento público e cobrança efetiva, o pacto nacional não passa de um documento bem-intencionado.
O risco de 2026: “medidas populares” que podem custar caro
Nos últimos meses, proliferam propostas apresentadas como modernização e benefício ao cidadão, como a ideia de renovação automática da CNH para quem não registra infrações.
A pergunta técnica é inevitável: não ter multa é prova de boa condução ou apenas de não ter sido flagrado? Flexibilizar filtros e controles em um país com fiscalização limitada é brincar com estatísticas que se traduzem em mortes reais.
Onde precisamos acertar em 2026
Se queremos mudar o rumo, precisamos de:
1. Gestão real da velocidade, com engenharia viária e fiscalização coerentes.
2. Estratégia específica para motociclistas, hoje o grupo mais vitimado.
3. Fiscalização inteligente e previsível, orientada por dados.
4. Educação para o trânsito como política contínua, não apenas campanhas de feriado.
5. Dados integrados e metas públicas, para permitir cobrança social.
O papel do Congresso Federal: frear o populismo
Cabe ao Congresso agir como freio técnico e ético, exigindo estudos de impacto, fortalecendo o PNATRANS e barrando projetos que apenas soam simpáticos, mas que enfraquecem a proteção coletiva.
A absurda CNH brasileira: quando se desmonta a formação do condutor
Um dos maiores retrocessos recentes foi a flexibilização da obrigatoriedade das autoescolas e a transformação do processo de formação em um sistema excessivamente permissivo.
A ideia de “baratear” e “desburocratizar” a CNH pode parecer atraente, mas o efeito colateral é evidente:
• menos formação técnica,
• menos padronização,
• menos controle de qualidade,
• mais condutores despreparados circulando nas vias.
Num país onde já falta fiscalização, desmontar o pilar da educação formal para o trânsito é empurrar para as ruas motoristas que nunca passaram por um processo estruturado de aprendizagem. O resultado é previsível: mais erros, mais conflitos, mais sinistros e mais vítimas.
Conclusão: fim de ano sem triunfalismo — e com responsabilidade
O Brasil entra em 2026 com alerta vermelho porque a conta chegou: mortes persistem, hospitais lotam, famílias choram e parte do poder público insiste em soluções fáceis para problemas complexos.
Se quisermos comemorar de verdade, a escolha é clara:
menos populismo, mais evidência; menos improviso, mais gestão; menos discurso, mais vidas salvas.
João Eduardo Moraes de Melo – Colunista – Portal Transitoweb