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A mobilidade urbana como instrumento de desigualdade social

Mais que reduzir o tempo dos deslocamentos e incrementar o transporte e os espaços públicos para pedestres e ciclistas, o planejamento adequado da mobilidade urbana pode ser um valioso instrumento de inclusão social e auxiliar na redução das desigualdades. Mas, se for negligenciada, pode reforçar os abismos sociais que deixam o Brasil ainda mais distante do caminho do desenvolvimento pleno.
Pesquisas feitas por entidades sérias, como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), mostram que a população de menor renda é ainda a que mais sofre com os problemas de mobilidade urbana e que os investimentos em vias e transportes são feitos de forma a beneficiar quem tem automóveis e mora perto do local de trabalho.
Uma das maiores distorções que, historicamente, vivemos no Brasil é priorizar investimentos em transporte individual em detrimento do coletivo. Isso limita o alcance das populações periféricas ao transporte de qualidade e a serviços importantes, que geralmente se localizam em áreas centrais, promovendo uma segregação invisível de oportunidades.
Um estudo do IPEA mostrou que os mais pobres gastam quase 20% a mais de tempo do que os mais ricos no deslocamento para o trabalho. Essa desigualdade, além de impactar na qualidade de vida, reduz a produtividade e impede, por exemplo, que uma significativa parcela da população possa se dedicar à busca de qualificação profissional. Assim, a mobilidade tem papel importante na perpetuação do ciclo de desigualdade.
O custo do deslocamento no Brasil é muito alto. O transporte público, esvaziado de investimentos ao longo de décadas, vem perdendo cada vez mais usuários. Em 2018, a quantidade diária de passageiros transportados por veículo era cerca de 60% do registrado na década de 1990. Essa redução encarece os preços das passagens. Com menos lucros, as empresas reduzem a quantidade de veículos disponíveis. O resultado é desastroso: tarifas altas demais e uma qualidade péssima.
Quando isso se associa à falta de planejamento e integração de rotas, inviabiliza que milhões de brasileiros tenham acesso a cultura, saúde e emprego, por exemplo. Precisamos buscar ações rápidas que diminuam esse abismo social, pensando as cidades e a mobilidade de uma forma inclusiva para todos.
Enquanto privilegiarmos carros e as regiões mais ricas no planejamento urbano, segregaremos a maior parte da população, justamente a que precisa de atenção maior do poder público.