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| Postado em 20 de julho de 2025 às 7:59

Quando a mochila pesa demais: os riscos invisíveis das “bags” dos entregadores

Quando a mochila pesa demais: os riscos invisíveis das “bags” dos entregadores

Elas estão por toda parte. Coloridas, quadradas, fixadas às costas de quem cruza as ruas em alta velocidade para entregar refeições, remédios, documentos. As famosas bags viraram símbolo da era dos aplicativos. Mas por trás da praticidade e do ritmo acelerado das entregas, existe um peso — literal e simbólico — que ainda não foi devidamente debatido.

Carga demais para o corpo

As mochilas térmicas usadas pelos entregadores podem parecer inofensivas à primeira vista. Mas estudos vêm mostrando que o uso prolongado dessas bags está diretamente associado ao surgimento de dores nas costas, lesões musculares e até problemas mais graves de coluna. A Fundacentro, instituição referência em saúde e segurança no trabalho, alerta: essas mochilas, em geral, não passam por nenhuma avaliação ergonômica e são usadas por trabalhadores que permanecem com elas fixadas ao corpo por longas horas, todos os dias.

Não se trata apenas do peso — que muitas vezes ultrapassa 10 kg — mas do tempo e da frequência com que são carregadas. Sem pausas. Sem revezamento. Sem qualquer tipo de proteção física adequada.

O elo frágil do trabalho informal

A maioria dos entregadores que utilizam essas bags trabalha sem carteira assinada, sem vínculo empregatício formal, sem exames admissionais ou periódicos que atestem suas condições de saúde. São autônomos apenas no papel. Na prática, seguem uma lógica de produção que impõe metas, horários e penalidades — mas sem garantias mínimas de proteção.

E assim, a bag se torna uma espécie de armadura moderna: cobre as costas, protege a carga, mas deixa vulnerável quem a carrega.

Um risco silencioso no trânsito

Além das questões de saúde, há outro ponto pouco abordado: o impacto dessas mochilas na segurança viária.

Ao serem fixadas diretamente ao corpo do motociclista, as bags alteram o centro de gravidade da pilotagem. Dependendo do tipo de carga, do volume e da forma como ela está acomodada, o comportamento da moto muda completamente — e para pior.

Em uma situação de emergência, como uma freada brusca ou uma curva acentuada, a resposta do piloto pode ser prejudicada. A direção defensiva — aquela que salva vidas — perde eficiência quando o corpo do condutor está desequilibrado por um acessório que sequer foi avaliado por instituições técnicas de trânsito.

Não estamos falando de um item qualquer. Estamos falando de um equipamento que afeta diretamente a estabilidade do veículo e, portanto, a segurança de todos que dividem o espaço público.

Intenção boa, execução nem sempre

Alguns governos locais, atentos à precariedade da atividade, têm implementado programas para distribuir gratuitamente essas mochilas a trabalhadores cadastrados. Outras iniciativas obrigam as empresas contratantes a fornecer os equipamentos diretamente. O intuito é louvável: apoiar quem está nas ruas todos os dias.

Mas é preciso cautela. Se as bags continuarem sendo adquiridas ou distribuídas sem critérios técnicos, ergonômicos ou de segurança, o recurso público poderá ser mal utilizado — e o problema, perpetuado sob nova roupagem. Sem uma regulamentação clara e um olhar técnico, corre-se o risco de institucionalizar o improviso.

Falta regulação. Falta responsabilidade.

Hoje, qualquer mochila pode virar uma bag. Não há normas técnicas obrigatórias, nem certificações mínimas. Os entregadores arcam com o custo da compra, do uso e das consequências.

Enquanto isso, empresas de aplicativo se beneficiam da agilidade e da eficiência que esse modelo proporciona, sem assumir o risco — físico, jurídico ou social.

A discussão precisa ir além da entrega. Precisamos falar de responsabilidade, de saúde ocupacional, de segurança no trânsito e de regulamentação mínima para garantir que a mochila nas costas de um trabalhador não seja uma sentença de dor ou de acidente.

E afinal: entregadores são motofretistas?

A pergunta fica no ar — e será o tema do próximo artigo. Mas a reflexão é urgente: se esses trabalhadores atuam sobre duas rodas, transportando mercadorias por remuneração, não estariam eles enquadrados nas normas do motofrete? E se sim, por que ainda operam à margem da legislação?

Enquanto não encaramos essa realidade de frente, seguimos empurrando para as costas dos mais vulneráveis o peso de uma engrenagem que gira rápido demais — e sem freios.

Danilo Costa
Advogado e especialista em Direito de Trânsito e Mobilidade Urbana
Presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Trânsito (IBDTRANSITO


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