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Manifesto: Quando a estrada vira palco de barbárie
O Brasil precisa olhar com urgência para o que tem acontecido nas suas estradas.
No último domingo, mais uma tragédia expôs o que há de mais sombrio em nós: um motociclista perdeu a vida após colidir com um animal de grande porte. O corpo da vítima jazia estendido no asfalto, e a poucos metros, a vaca — ainda viva — foi atacada, esquartejada e saqueada por populares. O sangue do homem e o sangue do animal se misturaram, enquanto a dignidade humana se esvaía junto com eles.
Essa cena não é um ponto fora da curva. É um retrato doloroso e crescente no Brasil.
Caminhões tombam, carretas capotam, motoristas agonizam, e o que se vê é uma multidão que, em vez de socorrer, saqueia. Leva a carga, pisa sobre as vítimas, rasga a lei e profana o que restava de humanidade. O local do sinistro — que deveria ser preservado para a perícia e para o socorro — se transforma em feira de rapina, onde a dor vira oportunidade.
Como educadora de trânsito, e como cidadã, não posso me calar.
Esse comportamento não é apenas uma infração moral — é crime.
Saque de carga é crime.
Violação de local de acidente é crime.
Desrespeito à vítima é crime.
E o silêncio cúmplice de quem assiste e não denuncia, também é uma forma de violência.
É preciso que o Estado — em todas as suas instâncias — aja.
Clamo à ONU, ao Presidente da República, ao Senado Federal, à Câmara dos Deputados, às Assembleias Legislativas, à Polícia Rodoviária Federal, e às igrejas de todas as denominações:
Não podemos normalizar a barbárie.
O país precisa de leis mais rigorosas e de aplicação efetiva contra quem saqueia, viola locais de sinistros ou desrespeita o corpo e a memória de uma vítima.
Precisamos de campanhas nacionais que falem de ética, empatia e civilidade no trânsito — porque não há trânsito seguro sem respeito à vida.
O que se passa nas estradas é um espelho da nossa alma coletiva.
E, se o espelho mostra indiferença, ganância e desrespeito, é sinal de que perdemos mais do que vidas: perdemos o senso de humanidade.
Que essa denúncia ecoe.
Que chegue às autoridades, aos púlpitos, aos palanques e aos gabinetes.
Que desperte vergonha e reação.
Porque uma sociedade que saqueia enquanto alguém morre já não está apenas em colapso no trânsito — está em colapso moral.
Abimadabe Vieira
Educadora de Trânsito da SEMOB Cabedelo-PB
Observadora Certificada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária
Embaixadora do Programa Volvo de Segurança no Trânsito
Representante Estadual do Movimento Maio Amarelo
Escritora da Coleção Amigos do Trânsito
Fonte
Abimadabe Vieira