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Com milhões de seguidores, influenciadores fazem fama atropelando as leis de trânsito
Jovens pilotam quadriciclos na Avenida Brasil, no Rio, e invadem as pistas exclusivas para ônibus. Um motoqueiro, que se apresenta como “ex-paraplégico”, ultrapassa centenas de veículos em alta velocidade, a poucos centímetros de distância. Um motorista acelera a 180km/h com a mulher, um bebê e uma criança no carro. Um caminhoneiro corre por rodovias federais enquanto admite ter dirigido a vida inteira sem habilitação. Juntos, esses influenciadores acumulam mais de 10 milhões de seguidores e conquistam engajamento exibindo seus crimes de trânsito nas redes sociais.
Entre os nomes mais conhecidos desse universo, destaca-se o de Nino Abravanel, jovem de 20 anos que exibe em seus perfis manobras perigosas, como o “grau” — quando o motociclista empina a moto —, pelas ruas de São Paulo. Mais de 6 milhões de pessoas acompanham os conteúdos dele no Instagram, onde Nino chega a aparecer em vídeos ainda menor de idade, realizando acrobacias em vias públicas sem qualquer equipamento de segurança.
Seguidor do influenciador, Kayc Gabriel da Silva, de 14 anos, também costumava compartilhar publicações similares. O adolescente morreu em um acidente de trânsito em Bezerros, no Agreste de Pernambuco, em setembro do ano passado. De acordo com a Polícia Civil, Kayc perdeu o controle da moto e se envolveu em uma colisão frontal ao participar de um encontro com amigos para exibir manobras arriscadas.
Outro influenciador, Victor Indiano, repete o mesmo padrão de conteúdo. Também vítima de um acidente que o deixou hospitalizado e temporariamente sem os movimentos das pernas em 2023, segundo relato publicado por ele nas redes sociais, o motociclista mantém postagens que exibem o desrespeito às leis de trânsito nas ruas de Salvador, na Bahia.
Numa gravação de agosto, Indiano ultrapassa centenas de veículos em alta velocidade, a poucos centímetros de distância. Na exibição, ele também realiza o “grau”. Outro vídeo mostra o momento em que o influenciador cai ao realizar uma manobra. Há ainda um registro fixado em seu perfil no Instagram, com mais de 470 mil curtidas, em que ele quase atropela um morador que saía de casa.
Rachas em carros de luxo e os chamados “drifts”, espécie de derrapagem forçada do veículo, também são recorrentes nesse cenário. Conhecido por promover as corridas ilegais em Mato Grosso do Sul e São Paulo, o influenciador Luan Marques, do canal “Petrolhead”, reúne mais de 2,5 milhões de seguidores e difunde vídeos das competições.
Em uma gravação de agosto, ele participa de um racha em uma rua estreita e atinge a marca de 280km/h. Entre as infrações divulgada abertamente na conta, uma em especial chama a atenção: ele dirige a mais de 180km/h com a mulher no banco do carona, enquanto um bebê chora no banco traseiro e uma criança conversa ao longo do trajeto. Não é possível saber se os menores eram filhos do influenciador.
No Rio, perfis como os de Miguel Grau, Lomo Grau, Devaci do Grau e Jean Borges publicam vídeos circulando de quadriciclos em vias públicas. Em uma publicação conjunta feita em outubro, o grupo trafega com os veículos em uma pista exclusiva para ônibus do BRT, na Avenida Brás de Pina, na Zona Norte da cidade.
Amigo do rapper Oruam, Miguel Grau — que tem mais de 1 milhão de seguidores no Instagram — estava com o artista em fevereiro do ano passado, quando o funkeiro foi preso na Barra da Tijuca após realizar manobras conhecidas como “cavalo de pau”. Em um vídeo gravado durante a abordagem, Miguel aparece acelerando um veículo de luxo para deixar o local no momento da chegada da polícia.
Exibir infrações de trânsito em busca de engajamento também virou prática comum entre caminhoneiros. Ademar Camiotto Junior, conhecido como “Cabelo Batateiro”, acumula mais de 116 milhões de visualizações no YouTube e 880 mil seguidores no Instagram.
Em seus perfis, além de mostrar a rotina nas estradas e momentos em família com os irmãos — também caminhoneiros, apelidados de “Serrote” e “Safadão” —, ele publica vídeos de apostas de corrida em rodovias, direção em alta velocidade e condução sem cinto de segurança. Em algumas gravações, admite não ter habilitação e conta usar medicamentos para se manter acordado durante trajetos longos. Em outra, Ademar grava “Safadão” dirigindo em zigue-zague durante o dia e, à noite, acelerando um caminhão a 180km/h.
Projeto de lei patina
Um projeto de lei aprovado pela Câmara e pelo Senado em 2021 previa a proibição da divulgação de conteúdos que incentivem infrações de trânsito, com punições como multas e suspensão da CNH. Após vetos presidenciais, porém, o texto não voltou a ser discutido no Congresso. Para Rodolfo Rizzotto, coordenador do SOS Estradas e fundador da Trânsito Amigo, entidade de apoio a vítimas de acidentes, retomar o debate é fundamental para coibir o incentivo a essas práticas.
— Há uma proliferação sem precedentes desse tipo de conteúdo nas redes sociais. Esses vídeos geram um processo de deseducação, com pessoas que vivem de realizar manobras perigosas para ganhar visibilidade e, consequentemente, dinheiro nas plataformas digitais. É preciso responsabilizá-las pelo que publicam, utilizando as próprias imagens das infrações e das condutas criminosas para aplicar punições.
Diretor de Operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Marcus Vinicius de Almeida afirma que o órgão tem realizado operações de inteligência voltadas a influenciadores que cometem crimes de trânsito. Ele pondera, porém, que o enfrentamento a essas práticas depende também da colaboração da população:
— É fundamental que o cidadão, ao presenciar esse tipo de infração, comunique as autoridades. A conscientização é essencial, pois a segurança vem em primeiro lugar. É importante que os usuários entendam que estão se expondo ao risco.
O GLOBO também procurou a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) para comentar possíveis medidas de combate à divulgação de conteúdos que incentivem crimes de trânsito nas redes sociais, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.
Fonte
O Globo