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A retomada silenciosa da tragédia: o Brasil voltou a matar no trânsito
Os dados não mentem. E quando falam, gritam.
A tabela de óbitos por acidentes de trânsito no Brasil entre 2000 e 2024, construída a partir do SIM – Sistema de Informações sobre Mortalidade (Ministério da Saúde), revela um padrão claro, contínuo e alarmante:
. crescimento sistemático das mortes até 2014,
. queda consistente por cerca de seis anos,
. e agora… uma retomada progressiva da mortalidade no trânsito.
Em 2000, o país registrava cerca de 29,4 mil mortes no trânsito.
Em 2014, esse número chegou ao pico de aproximadamente 44,5 mil óbitos.
Depois disso, veio uma fase de redução — fruto de políticas públicas, fiscalização, campanhas educativas, avanços tecnológicos e maior controle.
Mas essa curva mudou.
Desde 2019, o Brasil entrou em um novo ciclo de crescimento:
• 2020: 33.497 mortes
• 2021: 34.784 mortes
• 2022: 34.706 mortes
• 2023: 35.727 mortes
• 2024: 37.948 mortes
Ou seja: quatro anos consecutivos de alta.
E o mais grave: os dados apresentados não consideram a redistribuição dos óbitos por causas mal definidas. Se essa metodologia fosse aplicada — como muitos estudos técnicos fazem —, o número de 2014 ultrapassaria 47 mil mortes, o que torna o cenário histórico ainda mais trágico e revela que o país nunca deixou, de fato, de viver uma guerra silenciosa no trânsito.
Estamos, objetivamente, em plena retomada da letalidade viária.
O que mudou?
Nada disso acontece por acaso. A retomada das mortes tem causas claras:
• enfraquecimento da fiscalização,
• normalização da infração,
• banalização da violência no trânsito,
• crescimento desordenado do uso de motocicletas,
• ausência de políticas estruturantes de segurança viária,
• desmonte da educação para o trânsito,
• foco arrecadatório em vez de foco preventivo,
• e uma cultura que ainda trata o sinistro como “fatalidade”.
Não é fatalidade.
É modelo de mobilidade mal planejado + ausência de política pública eficaz + negligência estrutural.
2025 promete ser ainda pior
Os sinais já estão dados:
• mais veículos,
• mais motos,
• mais aplicativos,
• mais velocidade,
• menos fiscalização,
• menos educação,
• menos presença do Estado,
• mais permissividade.
Sem mudança de rota, 2025 tende a ser pior que 2024.
E não por acaso — por consequência lógica de um sistema que aceita o risco como normalidade.
Isso não é estatística. É gente.
Cada número representa:
• uma família destruída,
• uma criança órfã,
• uma mãe sem filho,
• um pai sem retorno para casa,
• uma vida interrompida por uma escolha evitável.
O trânsito brasileiro não mata por acidente.
Ele mata por decisão política, omissão institucional e irresponsabilidade coletiva.
O Brasil está repetindo o passado.
A curva que caiu, voltou a subir.
A tragédia que recuou, voltou a avançar.
A morte que diminuiu, voltou a crescer.
Estamos em retomada das mortes no trânsito.
E, se nada mudar, essa curva continuará subindo.
Não é alarmismo.
É dado.
É gráfico.
É série histórica.
É realidade.
É de matar.
Por: João Eduardo Melo – Presidente do Instituto VIA
