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A Estrada para o Caos
Por Alysson Coimbra
Quando o trânsito vira instrumento político e a técnica fica em segundo plano
Enquanto governos comemoram o aumento nos pedidos de habilitação como sinal de eficiência administrativa, os números de mortes e acidentes no trânsito mostram um cenário que não pode ser ignorado.
Em 2025, São Paulo registrou mais de 6 mil mortes no trânsito. Minas Gerais ultrapassou 312 mil ocorrências. Em média, um acidente a cada dois minutos. Esses dados não costumam aparecer com destaque nas manchetes que celebram o crescimento das emissões de CNH. Eles aparecem nas UTIs do SUS, nos afastamentos previdenciários e nas famílias que enfrentam perdas irreversíveis.
Nos últimos meses, estados como Minas Gerais e São Paulo registraram aumento expressivo na procura pela primeira habilitação. Em Minas, a alta chegou a 142%. Em São Paulo, o crescimento foi de 25% no estado e 35% na capital. À primeira vista, isso pode parecer inclusão social e ampliação de oportunidades.
Mas é preciso perguntar o que mudou para gerar esse salto.
O processo de habilitação passou por flexibilizações relevantes. Houve simplificação de etapas, ampliação do uso de ferramentas digitais e redução de exigências práticas que historicamente existiam para garantir formação adequada do condutor. O discurso oficial apresentou essas mudanças como modernização e desburocratização. O problema não está na modernização em si, está na ausência de debate técnico aprofundado e de estudos de impacto amplamente divulgados antes da implementação das mudanças.
Política pública séria precisa ser precedida de análise técnica clara. Quando alterações estruturais são feitas sem que a sociedade tenha acesso transparente aos critérios, aos dados e às projeções de impacto, abre-se espaço para dúvidas legítimas.
O trânsito não é tema ideológico, não é pauta de esquerda ou de direita. É gestão de risco coletivo. Qualquer alteração no processo de formação de condutores deveria estar diretamente vinculada a metas de redução de acidentes e mortes. No entanto, o que se vê é a comemoração do aumento no número de habilitações sem a mesma ênfase na segurança viária.
Existe uma assimetria evidente no debate público: o aumento no número de CNHs vira manchete positiva, mas Já os dados de mortalidade aparecem como estatística isolada, sem conexão com as políticas adotadas. Essa desconexão fragiliza o debate e impede que a sociedade compreenda o impacto sistêmico das decisões tomadas.
Os Detrans estaduais possuem responsabilidade direta sobre suas políticas de trânsito. O artigo 22 do Código de Trânsito Brasileiro atribui aos estados a competência para planejar, executar e fiscalizar o trânsito em sua circunscrição. Autonomia implica responsabilidade. Implementar mudanças estruturais exige prudência e compromisso com o interesse público, não apenas com indicadores administrativos.
Há também um impacto econômico que raramente entra na discussão. Acidentes geram custos elevados para o sistema de saúde, para a previdência social e para os cofres estaduais. Internações, cirurgias ortopédicas, afastamentos por invalidez e pensões representam despesas que não aparecem quando se celebra o aumento no número de habilitações emitidas.
Outro ponto fundamental é que o trânsito não afeta apenas quem dirige: pedestres, ciclistas, passageiros e toda a população que depende do sistema público de saúde são impactados. A flexibilização da formação de condutores não é uma decisão isolada sobre um documento. É uma decisão que altera o nível de risco ao qual toda a sociedade está exposta.
Ainda há tempo para reposicionamento técnico. Políticas públicas podem e devem ser revisadas quando surgem sinais de alerta. Governo forte não é aquele que acelera mudanças para produzir manchetes favoráveis. É aquele que corrige rumos quando percebe que a segurança coletiva pode estar em risco.
O trânsito é política de Estado. E políticas de Estado exigem planejamento, transparência e responsabilidade. O número de habilitações emitidas não pode ser o único indicador de sucesso. O verdadeiro indicador deve ser a redução de mortes e acidentes.
A vida humana não pode ser variável secundária em nenhum projeto administrativo que delibere sobre uma atividade de risco coletivo, que é a direção veicular.
Alysson Coimbra
Médico Especialista em Trânsito
Coordenador Nacional da Mobilização
de Médicos e Psicólogos do Tráfego
Membro do movimento Não Foi Acidente