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| Postado em 21 de janeiro de 2026 às 6:23

A retomada silenciosa da tragédia: o Brasil voltou a matar no trânsito

A retomada silenciosa da tragédia: o Brasil voltou a matar no trânsito

Os dados não mentem. E quando falam, gritam.

A tabela de óbitos por acidentes de trânsito no Brasil entre 2000 e 2024, construída a partir do SIM – Sistema de Informações sobre Mortalidade (Ministério da Saúde), revela um padrão claro, contínuo e alarmante:

. crescimento sistemático das mortes até 2014,

. queda consistente por cerca de seis anos,

. e agora… uma retomada progressiva da mortalidade no trânsito.

Em 2000, o país registrava cerca de 29,4 mil mortes no trânsito.

Em 2014, esse número chegou ao pico de aproximadamente 44,5 mil óbitos.

Depois disso, veio uma fase de redução — fruto de políticas públicas, fiscalização, campanhas educativas, avanços tecnológicos e maior controle.

Mas essa curva mudou.

Desde 2019, o Brasil entrou em um novo ciclo de crescimento:

• 2020: 33.497 mortes

• 2021: 34.784 mortes

• 2022: 34.706 mortes

• 2023: 35.727 mortes

• 2024: 37.948 mortes

Ou seja: quatro anos consecutivos de alta.

E o mais grave: os dados apresentados não consideram a redistribuição dos óbitos por causas mal definidas. Se essa metodologia fosse aplicada — como muitos estudos técnicos fazem —, o número de 2014 ultrapassaria 47 mil mortes, o que torna o cenário histórico ainda mais trágico e revela que o país nunca deixou, de fato, de viver uma guerra silenciosa no trânsito.

Estamos, objetivamente, em plena retomada da letalidade viária.

O que mudou?

Nada disso acontece por acaso. A retomada das mortes tem causas claras:

• enfraquecimento da fiscalização,

• normalização da infração,

• banalização da violência no trânsito,

• crescimento desordenado do uso de motocicletas,

• ausência de políticas estruturantes de segurança viária,

• desmonte da educação para o trânsito,

• foco arrecadatório em vez de foco preventivo,

• e uma cultura que ainda trata o sinistro como “fatalidade”.

Não é fatalidade.

É modelo de mobilidade mal planejado + ausência de política pública eficaz + negligência estrutural.

2025 promete ser ainda pior

Os sinais já estão dados:

• mais veículos,

• mais motos,

• mais aplicativos,

• mais velocidade,

• menos fiscalização,

• menos educação,

• menos presença do Estado,

• mais permissividade.

Sem mudança de rota, 2025 tende a ser pior que 2024.

E não por acaso — por consequência lógica de um sistema que aceita o risco como normalidade.

Isso não é estatística. É gente.

Cada número representa:

• uma família destruída,

• uma criança órfã,

• uma mãe sem filho,

• um pai sem retorno para casa,

• uma vida interrompida por uma escolha evitável.

O trânsito brasileiro não mata por acidente.

Ele mata por decisão política, omissão institucional e irresponsabilidade coletiva.

O Brasil está repetindo o passado.

A curva que caiu, voltou a subir.

A tragédia que recuou, voltou a avançar.

A morte que diminuiu, voltou a crescer.

Estamos em retomada das mortes no trânsito.

E, se nada mudar, essa curva continuará subindo.

Não é alarmismo.

É dado.

É gráfico.

É série histórica.

É realidade.

É de matar.

 

Por: João Eduardo Melo – Presidente do Instituto VIA

 


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