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Duas rodas, uma vida: o trânsito precisa enxergar o motociclista como ser humano
Os números não mentem. Os motociclistas ocupam o topo da triste estatística de vítimas no trânsito brasileiro. Mas, para além dos dados e gráficos, há algo que precisa ser urgentemente revisto: a forma como enxergamos quem está sobre duas rodas. O motociclista não pode continuar sendo visto apenas como um risco ambulante ou um agente da pressa alheia. Ele é, antes de tudo, uma pessoa. Com sonhos, família, rotina e dignidade. E é sobre isso que precisamos refletir.
Tive a honra de participar do 2º Seminário de Segurança Viária – Duas Rodas, Muitos Caminhos: o motociclista entre o trabalho, a vida e o mercado, realizado pela PRF. Um encontro plural e necessário, que convidou à empatia e à escuta ativa.
O motociclista como ser humano
O evento foi um convite a entendermos o motociclista não como estatística, mas como indivíduo. Ele enfrenta calor, chuva, trânsito caótico, fome, cansaço e medo. Muitas vezes, trabalha mais de 12 horas diárias para sustentar a família, sem garantias de acesso a equipamentos de segurança de qualidade ou a vias mínimas de conforto.
As motogirls e as condições insalubres
Quando falamos de motogirls — mulheres que assumem a moto como meio de vida — o desafio se agrava. Elas convivem com a instabilidade das ruas em situação ainda mais precária: não encontram banheiros limpos ou adaptados, não dispõem de locais para descanso e, durante o ciclo menstrual, sofrem com a falta de estrutura digna para higiene. São barradas em muitos postos de parada, sentem-se discriminadas e, por isso, permanecem expostas ao sol, à chuva e ao risco constante de acidentes. Humanizar o trânsito significa também garantir a essas trabalhadoras o mínimo de dignidade: sanitários acessíveis, áreas de sombra, cadeiras para pausa e campanhas de cuidado com a saúde feminina no contexto urbano.
Educação e políticas públicas inclusivas
Humanizar o trânsito vai além da fiscalização. É investir em formação continuada, criar campanhas que não criminalizem, mas incluam. É pensar em políticas que promovam a saúde física e mental desses profissionais, com atendimento psicológico, planos de saúde acessíveis e programas de alimentação saudável nas paradas.
Precisamos sair da lógica do “quem é mais forte vence” para uma cultura de respeito mútuo. O motociclista, seja homem ou mulher, tem direito à segurança, à mobilidade e à vida. É hora de substituir o olhar apressado e hostil por um olhar de cuidado, onde cada ultrapassagem seja feita com tolerância e cada espaço na via seja reconhecido como lugar de um ser humano.
O trânsito não é feito de máquinas, mas de vidas. E cada motociclista que parte para mais um dia de trabalho carrega não apenas o capacete na cabeça, mas um universo inteiro no peito. Que possamos, enquanto sociedade, enxergar isso com mais clareza, responsabilidade e humanidade. Porque a segurança no trânsito só será real quando começarmos a ver o outro como alguém que também poderia ser nós.
João Eduardo – Presidente do Instituto VIA e colunista do Portal TrânsitoWeb.
Instagram: @institutovia @joaoeduardojp @portaltransitoweb