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Falas do secretário da Senatran expõem contramão da segurança viária no Brasil
As recentes decisões adotadas pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) vêm provocando forte repercussão na imprensa e acendendo um alerta entre especialistas em segurança viária, instrutores de trânsito e entidades ligadas à formação de condutores. O debate ganhou ainda mais visibilidade após entrevista concedida pelo secretário nacional de Trânsito, Adrualdo Catão, ao programa Fantástico, da TV Globo, na qual ele abordou as mudanças em curso no sistema de habilitação brasileiro.
Embora o discurso oficial sustente a ideia de modernização, desburocratização e ampliação do acesso à Carteira Nacional de Habilitação (CNH), as medidas anunciadas, como a flexibilização de etapas do processo de formação e avaliação de condutores, vêm sendo interpretadas por críticos como um perigoso afrouxamento das políticas de segurança viária.
Um ponto que amplia a preocupação do setor é a condução política das mudanças. Nos bastidores, dirigentes de Detrans e representantes de entidades ligadas à formação de condutores relatam que o ministro dos Transportes, Renan Filho, teria pressionado presidentes dos Detrans para que aderissem às diretrizes da chamada “nova CNH do Brasil”, mesmo diante de resistências técnicas e institucionais. Segundo esses relatos, a imposição das mudanças teria ocorrido em tom considerado coercitivo por parte do ministério, aprofundando o desgaste com os órgãos executivos estaduais de trânsito.
Entre críticos das alterações, a postura do ministro rendeu-lhe o apelido de “príncipe da morte”, expressão usada de forma simbólica para traduzir o temor de que decisões tomadas sem respaldo técnico e sem amplo diálogo possam resultar no aumento de acidentes e vítimas no trânsito. O apelido, embora informal, reflete o grau de insatisfação e apreensão existente no setor.
Durante a entrevista, Catão defendeu alterações em etapas tradicionais da prova prática, incluindo a retirada da baliza em alguns estados e a adoção de critérios considerados mais “funcionais” de avaliação. Para o secretário, o modelo atual estaria defasado e excessivamente burocrático. Especialistas, no entanto, alertam que atacar o problema exclusivamente sob o viés do acesso, sem fortalecer a qualidade da formação, pode gerar um efeito inverso, mais condutores despreparados circulando em vias já marcadas por elevados índices de acidentes e mortes.
Ao priorizar agilidade e redução de custos, a fala do secretário revela uma visão predominantemente administrativa da CNH, que, segundo críticos, ignora seu caráter social. A habilitação não é apenas um documento, mas uma certificação de que o cidadão está apto a compartilhar o espaço público com responsabilidade, conhecimento técnico e consciência dos riscos envolvidos no trânsito.
Dados de organizações nacionais e internacionais de segurança viária indicam que o Brasil segue entre os países com maior número de óbitos no trânsito, realidade que exige políticas públicas baseadas em rigor técnico, educação continuada e fiscalização efetiva. Nesse contexto, decisões que fragilizam etapas do processo de habilitação são vistas como um retrocesso, especialmente diante de um cenário de infraestrutura precária, fiscalização desigual e cultura persistente de desrespeito às normas de trânsito.
Além disso, instrutores, examinadores e centros de formação de condutores reclamam da falta de diálogo amplo e transparente. Mudanças estruturais vêm sendo implementadas sem a apresentação pública de estudos de impacto consistentes, o que compromete a confiança nas ações da Senatran e do governo federal.
A entrevista no Fantástico, ao mesmo tempo em que buscou tranquilizar a população, acabou evidenciando uma contradição central, reconhecer a gravidade da violência no trânsito, mas apostar em soluções que, na avaliação de especialistas, podem fragilizar ainda mais o sistema de prevenção.
Para quem atua na área, o enfrentamento da insegurança viária passa por investimentos sólidos em educação para o trânsito, fortalecimento da formação prática e teórica, fiscalização permanente e políticas integradas, e não apenas por mudanças administrativas ou flexibilização de exigências.
Enquanto as medidas seguem em implementação, cresce a cobrança para que o governo federal apresente dados concretos, metas claras e garantias de que a chamada modernização não custará vidas. No trânsito, alertam especialistas, qualquer erro de cálculo tem consequências irreversíveis.
Fonte
Redação TransitoWeb