Queda
| Postado em 06 de fevereiro de 2020 às 4:30

Número de patinetes em circulação cai em São Paulo

Por Redação Portal

Enquanto parte dos paulistanos se queixa da dificuldade de encontrar os patinetes em locais que já haviam se tornado tradicionais, há quem sinta um certo alívio.

Número de patinetes em circulação cai em São Paulo
Reprodução

Três meses após o início das regras que regulamentam o uso de patinetes elétricos em São Paulo, o número de equipamentos em circulação caiu e a Prefeitura ainda não criou as estações onde eles devem ser deixados. Enquanto parte dos paulistanos se queixa da dificuldade de encontrar os patinetes em locais que já haviam se tornado tradicionais, há quem sinta um certo alívio.

Na Praça Silvio Romero, no Tatuapé, na zona leste, não havia nenhuma unidade quando a reportagem visitou a área, na sexta-feira, 7. Nas Avenidas Faria Lima, na zona oeste, e Paulista, na região central, que há um ano estavam tomadas pelo modal, também é possível observar um menor número de equipamentos. Procuradas, as empresas não informaram quantos patinetes circulam na capital nem qual foi a redução de equipamentos nas últimas semanas.

O comerciante Paulo Vinícius Aires, de 18 anos, ficou surpreso com a retirada de patinetes no Tatuapé. “Eu sempre usei, desde o início (da implementação do modal), para ir até o Carrão. Era uma alternativa mais rápida.”

Na Faria Lima, a reportagem encontrou dez patinetes estacionados no acesso ao metrô e outros cinco quebrados e sem bateria atrás de uma banca de jornal, à espera de funcionários das empresas que alugam o equipamento compartilhado. O cenário é diferente do observado em outubro do ano passado, quando havia um número maior de patinetes no mesmo local.

O consultor de negócios Vitor Soares, de 22 anos, também observou a redução da oferta do modal. “Os patinetes estão sumindo. Já me acostumei a usá-los do metrô Faria Lima até a Avenida Pedroso de Moraes, onde trabalho, mas agora tem vezes que não encontro nenhum equipamento.”

Na Paulista, a situação é semelhante. Menos de dez patinetes estavam na calçada do lado oposto ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), mesmo local onde já teve o dobro de unidades.

“O número de patinetes por aqui caiu bastante, infelizmente. O equipamento agiliza o meu deslocamento, consigo chegar mais rápido ao destino. Mas acredito que é preciso ter mais infraestrutura e respeito por parte dos usuários também”, avalia o garçom Leandro Henrique, de 32 anos.

Enquanto usuários já acostumados com o modal lamentam, há quem considere a redução um alívio. “Muitas pessoas usam, mas ainda vejo crianças com o equipamento, mesmo com a proibição. É preciso reforçar a fiscalização para evitar acidentes e incentivar o uso de capacete”, avalia o administrador de empresas Danilo Alves, de 37 anos.

Desde que os patinetes começaram a circular no País, no segundo semestre de 2018, uma série de acidentes foram relatados. O mais grave aconteceu em setembro do ano passado, em Belo Horizonte. O empresário Roberto Pinto Batista Júnior, de 43 anos, morreu ao bater a cabeça em um bloco de concreto, depois de cair do equipamento. Batista Júnior deixou viúva e dois filhos.

“(Mesmo com a regulamentação) muitos usuários não respeitam (as regras) e usam até a calçada, mesmo na Avenida Faria Lima, onde tem a ciclovia. Bicicletas também disputam espaço com patinetes. Falta cidadania”, se queixa Alves.

A opinião é compartilhada pela comerciante Diva Garcia, de 41 anos. “As pessoas usam patinetes nas avenidas, atravessam no meio de carros e largam em qualquer lugar. Deixam de qualquer jeito no chão.”

O sumiço dos patinetes está relacionado à saída de empresas que operavam em São Paulo ou da redução da operação daquelas que continuam aqui. Procuradas, startups afirmaram que a decisão de deixar São Paulo foi tomada em razão de questões estratégicas ou de sustentabilidade financeira. Apesar de manifestar insatisfação na época da regulamentação, nenhuma operadora citou as novas regras como motivo para saída ou diminuição da operação na cidade.

Procurada, a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes afirmou que a redução de patinetes está relacionada a “uma decisão de mercado das próprias empresas”.

“A expectativa é de que seja possível readequar essa equação e que, juntos, mercado, sociedade, poder público e demais operadoras encontrem o denominador socioeconômico viável para seguir e explorar da melhor maneira esse mercado”, disse José Muritiba, diretor executivo da Associação Brasileira de Startups (Abstartups).

Para o professor Paulo Furquim, coordenador do Centro de Regulação e Democracia do Insper, a criação de uma regulamentação restritiva – e não a falta de demanda – é a hipótese mais “plausível” para a saída de empresas de São Paulo. “É um modelo de negócio com viabilidade econômica. O ponto principal para ele funcionar bem – tanto para a cidade quanto para a empresa – é que se tenha alguma política voltada para tornar viável e segura a utilização desse meio (de transporte)”, diz o professor.

Em relação ao sucesso e viabilidade do modelo de negócio, ele acredita que o compartilhamento tem potencial na cidade, por ser um opção de transporte complementar a ônibus, metrô e trem. “Tem demanda grande não só para pequenos deslocamentos, como nas ciclovias das Avenidas Faria Lima e Paulista. (O compartilhamento de patinetes e suas variações) é o futuro da mobilidade, pois conecta os troncos de transporte público – metrô, trem e corredores de ônibus”, avalia.

“A gente tem visto pessoas comprando patinete para uso pessoal. Se é viável para uma pessoa comprar e subutilizá-lo – usar uma hora por dia, por exemplo -, então é economicamente muito mais viável você compartilhar esse equipamento”, acrescenta.

Furquim afirma que o poder público focou na restrição do uso antes que o modal tivesse se popularizado a ponto de virar um problema para a cidade. “Em Paris, por exemplo, primeiro houve a intenção de viabilizar, de fazer crescer o uso até o ponto de ficar problemático, e depois as autoridades vieram com medidas restritivas. Aqui em São Paulo a gente inverteu: primeiro jogou as restrições para depois falar em criar uma estrutura.”

Ainda assim, o professor destaca alguns pontos positivos na regulação, como a obrigatoriedade do uso de capacetes e as regras para estacionamento nas vias.

As estações para onde as operadoras levarão os patinetes após o uso, previstas na regulamentação, ainda não foram criadas pela Prefeitura. Segundo a gestão Bruno Covas, a secretaria de Transportes, por meio da Companhia de Engenharia de Trânsito (CET), “está se reunindo com as empresas credenciadas para definir os locais” onde elas serão instaladas. Segundo as regras municipais, os patinetes não podem ser deixados em qualquer lugar.

Já os usuários podem estacionar o equipamento em vias com ciclovias ou ciclofaixas, independentemente da velocidade regulamentada ou em vias sem ciclovias ou ciclofaixas, com velocidade menor ou igual a 40 km/h, respeitando determinadas condições, como período de permanência. Da rua, o equipamento será levado para as estações, assim que elas forem instaladas.

Outro ponto que ainda está sendo analisado pelo Comitê Municipal de Uso do Viário (Cmuv), órgão ligado à Prefeitura, é a obrigatoriedade do capacete. Em maio, decreto provisório do prefeito Bruno Covas exigiu o uso do equipamento, mas a medida foi suspensa após pedido de uma das operadoras à Justiça. Na mesma época, houve ainda apreensão de patinetes nas ruas, por parte da Prefeitura. O decreto definitivo foi publicado em agosto.

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