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Alysson Coimbra
Os motoristas invisíveis que estão morrendo nas estradas do Brasil
Por Alysson Coimbra
Eles quase nunca aparecem nas multas, mas dominam as estatísticas de amputações, UTIs e mortes no trânsito.
O Brasil encerrou 2024 com um dado alarmante: 37.150 mortes no trânsito, o maior número dos últimos 7 anos e o primeiro aumento anual depois de mais de duas décadas de queda. Mas o mais grave não está apenas no número absoluto, está no que ele revela sobre o funcionamento real do nosso sistema de trânsito.
Vivemos hoje uma contradição perigosa:
as estatísticas oficiais de infrações não crescem na mesma proporção que as mortes. Em tese, isso sugeriria um país com melhores condutores. Na prática, revela exatamente o oposto: um país que não está enxergando quem mais se arrisca.
O Brasil não é um país de poucos infratores. É um país de infratores invisíveis.
A multa de trânsito não é apenas um instrumento de punição. Ela é um dos mecanismos mais eficazes de educação e de correção de comportamento. Em milhares de situações, ela evita o acidente que ainda não aconteceu. Onde a fiscalização é frágil, desigual ou facilmente burlável, o comportamento de risco se acumula até que ele se transforme em tragédia.
É exatamente isso que estamos vivendo. Uma parcela expressiva dos condutores que mais se expõem ao risco simplesmente não aparece nos sistemas de infração. Não porque dirijam melhor, mas porque a fiscalização não os alcança.
Esses motoristas invisíveis, no entanto, aparecem em outro lugar: nas ambulâncias, nas UTIs, nas salas de trauma e nas estatísticas de amputações e óbitos.
Somado a isso, dados técnicos amplamente utilizados no campo da medicina do tráfego, inclusive em análises e publicações da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (ABRAMET), indicam que aproximadamente 38% dos acidentes de trânsito guardam relação direta ou indireta com condições orgânicas de saúde do condutor. Estamos falando de alterações clínicas, neurológicas, oftalmológicas e psíquicas que interferem de forma concreta na capacidade de dirigir com segurança.
O trânsito se tornou o ambiente onde essas fragilidades clínicas se convertem em morte.
O problema é ainda mais grave entre motoristas profissionais: jornadas exaustivas, pressão por produtividade, privação de sono e adoecimento progressivo formam um cenário em que o risco cresce, mas o sistema de autuação frequentemente não chega ao condutor. Multas são pagas administrativamente, pontos não produzem efeito educativo, e o comportamento de risco continua.
O dia 9 de janeiro já pode ser considerado um marco negativo na história do Sistema Nacional de Trânsito. Pela primeira vez, quase 400 mil motoristas com a CNH vencida foram reinseridos automaticamente no sistema, sem qualquer verificação presencial de saúde, capacidade funcional ou condições psicofísicas para dirigir. Trata-se de uma decisão que, na prática, empurrou centenas de milhares de pessoas vulneráveis de volta ao volante, fruto de uma lógica puramente administrativa, concebida dentro de gabinetes climatizados, distante da realidade das estradas, dos hospitais e das famílias que convivem diariamente com o impacto dos acidentes.
Quando o Estado perde suas travas de controle sobre a saúde física, mental e psicológica dos condutores, ele não está modernizando o sistema. Ele está abrindo mão da sua função básica de proteção.
O governo não está ajudando o cidadão. Ele está, silenciosamente, desistindo de cuidar dele.
O impacto disso vai muito além do trânsito. Cada acidente grave sobrecarrega o SAMU, os hospitais, as filas de cirurgia, o INSS e as famílias que perdem renda e estabilidade. O trânsito hoje é uma das principais fontes de pressão sobre o Sistema Único de Saúde.
Quanto mais o país deixa de enxergar seus condutores mais frágeis, mais ele transfere o problema da prevenção para a emergência hospitalar. E esse é o caminho mais caro, mais cruel e mais ineficiente que existe.
O Brasil não precisa de menos controle. Precisa de controle que funcione.
Porque um país que não enxerga seus motoristas mais vulneráveis não se torna mais livre.Torna-se apenas um país que escolheu não ver quem vai morrer primeiro, até que o país inteiro sinta.
Alysson Coimbra é Médico do Tráfego
Coordenador Nacional da Mobilização de Médicos e Psicólogos do Tráfego
Membro do Movimento Não Foi Acidente