Patinete
| Postado em 28 de janeiro de 2020 às 4:23

Por que aplicativos de patinetes estão fechando no Brasil?

Por Redação Portal

O comunicado foi emitido pela Grow, empresa responsável pelos dois apps, em 22 de janeiro.

Por que aplicativos de patinetes estão fechando no Brasil?
Reprodução

Os aplicativos Grin e Yellow, que oferecem o serviço de aluguel de patinetes elétricos direto do smartphone, vão deixar de operar em 14 cidades brasileiras. O comunicado foi emitido pela Grow, empresa responsável pelos dois apps, em 22 de janeiro.

Com a decisão, as marcas fecharão o serviço em cinco estados brasileiros e no distrito federal, ficando limitadas a três capitais: Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.

Segundo a Grow, o encerramento das atividades acontece porque a empresa está passando por uma reestruturação, mas detalhes do plano não foram divulgados.

Os dois apps surgiram em 2018. O Grin, de origem mexicana; o Yellow, de origem brasileira, capitaneada pela 99, empresa de aplicativo de transporte. Em janeiro de 2019, os dois apps se uniram sob o guarda-chuva da empresa Grow.

Em 9 de janeiro, a americana de aluguel de patinetes Lime anunciou o fim de suas operações no Brasil – onde estava presente em São Paulo e Rio de Janeiro – e em outras 10 cidades do mundo, em países como Estados Unidos, Argentina e Colômbia.

A Lime justificou a decisão afirmando que a operação nessas cidades não era lucrativa o suficiente.

Em busca de um modelo rentável
A dificuldade de encontrar um modelo de negócios rentável é recorrente em empresas desse tipo. Rodrigo Costa, gerente comercial da operadora de patinetes FlipOn, disse à revista Forbes Brasil em junho de 2019 que a lucratividade é baixa. Segundo ele, a operação de cada veículo custa cerca de R$ 3.200, e a arrecadação mensal se limita a algo em torno de R$ 2.000 mensais.

O retorno do investimento aconteceria em cerca de 50 dias, porém, os patinetes têm uma vida útil de 28,8 dias, colocando em xeque a possibilidade de rentabilidade.

Essa visão é corroborada por Valério Marochi, coordenador do Centro de Mobilidade Sustentável e Inteligente do Sistema FIep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná). “A análise da rentabilidade do negócio dentro do contexto brasileiro talvez não tenha sido realizada muito bem. Acho que fizeram com a ideia de primeiro trazer a tendência e depois ver como o mercado se comporta”, disse Marochi ao Nexo.

Para ele, faltou uma análise mais profunda do acesso às tecnologias necessárias para a manutenção dos veículos no Brasil. Um exemplo é a produção de baterias de lítio, usadas para alimentar os patinetes elétricos, pequena no Brasil. Isso exigia que a maior parte delas fosse importada da China, o que encarece a operação, segundo Marochi.

“Além de trazer mais custos, isso também traz morosidade aos veículos, já que o patinete precisa ser recolhido e aguardar a chegada das novas peças”, avaliou.

Uma estratégia de rentabilidade adotada por aplicativos de outros países e que poderia ser exemplo para as operações brasileiras, na opinião de Marochi, é a diversificação de receita para além do aluguel em si. Ele cita como exemplos apps que, nos Estados Unidos, passaram a comprar imóveis próximos aos pontos de retirada dos veículos e alugá-los para que lojistas possam aproveitar o movimento intenso.

“Apostar somente no compartilhamento de micro mobilidade – patinetes, scooters, seja o que for – não é rentável. Então eles criaram negócios ao redor do aluguel. A parte triste é que as empresas daqui estão sofrendo o que outras já sofreram lá fora, problemas que poderiam ser evitados”, afirmou.

Acidentes e vandalismo
Ao redor do mundo, empresas que oferecem o aluguel de patinetes elétricos sofreram problemas que iam além do modelo de negócios, da infraestrutura ou do acesso à peças para a manutenção.

No México, em agosto de 2019, a Grin suspendeu as atividades por tempo indeterminado por causa do alto número de roubos de patinetes e casos de vandalismo. Somente na capital, Cidade do México, a empresa tinha uma operação diária de cerca de 20 mil viagens.

Meses antes, em maio, o Ministério dos Transportes da França proibiu a circulação dos patinetes nas calçadas, dado o alto número de ocorrências de acidentes e reclamações por parte dos pedestres. Na Alemanha, assim que a circulação dos patinetes foi liberada, um número significativo de acidentes foi registrado em diversas cidades do país.

Um deles, em Munique, envolveu uma idosa de 85 anos que circulava na rua com um patinete e caiu após ser cortada por um carro. Outro teve como protagonista um homem que, ao aceitar a indicação de rota de seu celular, acabou em uma auto estrada e teve que ser escoltado por dois carros para conseguir sair da rodovia.

No Brasil, 125 acidentes foram registrados na cidade de São Paulo entre janeiro e maio de 2019, envolvendo patinetes, skates e similares, um aumento de 12,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Entre a moda e a tendência
De acordo com a pesquisa Global EV Outlook 2019, conduzida pela Agência Internacional de Energia em 38 países, até o final de 2018 havia cerca de 300 milhões de veículos no mundo que se enquadravam como levíssimos, categoria que abraça os patinetes, skates, bicicletas e triciclos elétricos.

A expressividade dos números faz Marochi afirmar que o uso de patinetes elétricos é uma tendência, e não uma moda passageira.

“O patinete é, com certeza, uma solução. Mas o pré-requisito para qualquer solução de mobilidade é infraestrutura, no Brasil e em qualquer lugar do mundo”, disse. “É a infraestrutura que habilita as tecnologias de mobilidade. Quando a gente resolve os problemas de infraestrutura, a gente começa a criar maior possibilidade do uso de determinadas soluções.”

O uso em massa de patinetes, por exemplo, exige um investimento de ampliação e melhoria de ciclofaixas e ciclovias. “O patinete não pode trafegar em situações onde ele disputa espaço na rua, ou nas calçadas com os pedestres, ou ele pode se tornar não uma solução, mas um problema de mobilidade urbana”, afirmou.

Uma tendência elitista?
Há também questionamentos sobre os patinetes elétricos serem um veículo acessado somente por classes sociais mais altas.

A cidade de San Francisco, na Califórnia, abriga uma frota de cerca de 10 mil patinetes elétricos. Uma pesquisa da agência municipal de trânsito da cidade descobriu que a maior parte dos usuários dos veículos são homens com salários que ultrapassam os US$ 100 mil anuais.

Os números fizeram com o que o jornal San Francisco Examiner publicasse a afirmação de que os patinetes são “brinquedos para uma elite rica”.

Para Marochi, parte da ideia de que os patinetes são elitistas surge justamente da noção de que eles seriam um brinquedo, e não um veículo – e opção para diminuir o impacto ambiental do trânsito. A economia de combustível o torna uma opção melhor na comparação com outros veículos, diz o coordenador.

“Um carro elétrico, por exemplo, consegue percorrer cerca 12 quilômetros com 1 kilowatt/hora de energia. Já com um patinete, bicicleta ou qualquer outro veículo de micro mobilidade urbana, é possível, com o mesmo 1 kilowatt/hora de energia, percorrer uma distância dez vezes maior”, afirmou.

 

Fonte
Nexo Jornal


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