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| Postado em 04 de novembro de 2019 às 12:04

Quando a ignorância assume o volante

Por Redação Portal

Na década de 1920, Sigmund Freud, o famoso criador da psicanálise, criou um modelo o qual chamou de Teoria da Personalidade

Quando a ignorância assume o volante

Na década de 1920, Sigmund Freud, o famoso criador da psicanálise, criou um modelo o qual chamou de Teoria da Personalidade. Segundo esse modelo, a psique humana seria formada por três instâncias que interagem e se complementam, que se chamam IdEgo Superego. Não vou me aprofundar muito nas questões teóricas, mas para exemplificar, tente pensar naquela famosa cena, bastante utilizada em filmes e desenhos animados, onde o personagem, em situação de indecisão, a partir de um diálogo interno se depara com as figuras de um anjinho e um diabinho, cada qual sugerindo tomar uma decisão diferente.

Embora não seja o mais cientificamente preciso, esse é o exemplo de mais fácil compreensão. Imagine que você é o Ego, e a todo o momento é influenciado nas suas tomadas de decisões por um diabinho (Id), que quer saciar seus desejos mais sombrios e incontroláveis a todo custo; e de outro lado um anjinho (Superego), que não cansa de tolir cada movimento seu através do seu jeito controlador. Em outras palavras, o Id atende aos desejos, aos instintos. Já o Superego trata de dar conta da moral, do que é certo ou errado.

Crianças costumam ser mais impacientes e imediatistas justamente por não terem seu sistema psíquico totalmente formado. É por esse motivo que os pais precisam fazer o papel do Superego, dando limites a elas. Isso é fundamental para um desenvolvimento saudável. Agora, imagine a seguinte situação: Quem tem filho(s) sabe que a hora das compras no mercado com ele(s) pode ser um grande desafio. No que dependesse das crianças, todos os meses deixaríamos nosso salário inteiro no supermercado somente em doces e guloseimas.

No entanto, suponhamos que seu filho recebeu uma educação exemplar. Você enquanto figura parental presente, ativa e responsável conseguiu impor limites ao seu filho, ensinando a ele que nem tudo que está na prateleira por ser simplesmente empurrado para dentro do carrinho como que se suas posses fossem infinitas.

Uma vez no mercado, você combina com seu filho que ele pode escolher uma guloseima (dentre as milhares de opções) para levar pra casa. No entanto, seu filho neste dia resolve escolher aquela que é extremamente prejudicial à saúde. Você, talvez desconhecendo essa informação, pode dar o produto ao seu filho. Ou, enquanto pai (ou mãe) zeloso(a) que é, tem algumas alternativas: a primeira é a de, caso não soubesse do que se tratava a guloseima, pesquisar no rótulo do doce sua composição e, para os mais neuróticos, até buscar na internet informações sobre os componentes do produto.

De posse dessas informações, você tem a opção de tentar negociar com a criança a troca daquele produto por um mais saudável ou menos prejudicial (pelo menos), ou ainda a opção de dar aquele produto mesmo assim (na minha opinião a opção mais preocupante), a final, se é aquilo que ela quer é melhor dar de uma vez para não criar ainda mais problemas e nem correr o risco de perder o amor dela.

Agora você pode estar se questionando “mas o que toda essa baboseira psicológica, de supermercado, crianças e guloseimas tem a ver com o trânsito a final?!

Bem, usemos a seguinte analogia: digamos que o Brasil seja a criança, até mesmo porque, em termos de segurança no trânsito, comparado a outros países, estamos ainda engatinhando… O supermercado seja o nosso trânsito e, finalmente, o pai seja o governo. Entenda que esse artigo não tem qualquer viés político. No entanto, assim como diversos colegas especialistas em trânsito, as declarações feitas pelo nosso atual presidente, no que diz respeito ao assunto, me deixaram bastante preocupado.

São diversas promessas de guloseimas que certamente têm encantado uma parcela bastante grande (e imatura, por assim dizer) da população: como o aumento do limite de pontuação na CNH de 20 para 40 pontos, o aumento da validade da CNH de 5 para 10 anos e, por fim, o cancelamento dos radares em rodovias federais, como pontuou recentemente de forma magnífica a colega Mércia Gomes, que é especialista em Legislação de Trânsito (leia mais sobre). Fico a me perguntar se mais cedo ou mais tarde não vamos nos deparar em frente a estantes de puxa-puxa os agentes de trânsito pra segurança pública, compotas de etilômetros em desuso ou até mesmo quebra-queixo de air-bags desnecessários nesse grande supermercado que é o trânsito.

Vejo ultimamente pessoas nas redes sociais defenderem calorosamente tais medidas, assim como se defendessem seus times de futebol. Não podemos esquecer que, quando se trata de futebol, apenas um dos times perde. No trânsito, entretanto, todos perdemos. Não há empates, só derrotas. E não se perdem só de partidas, mas vidas.

Não tive ainda capacidade de entender em qual das circunstância essas medidas se enquadram: se em uma imatura ignorância ou em um puro e inconsequente populismo (e nem qual seria o pior dos dois…). Enquanto tento entender, deixo aqui uma breve reflexão aos sensatos amigos leitores:

O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete . (Aristóteles)

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