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Renan Filho, “O Príncipe da Morte”
A Resolução nº 1020 do CONTRAN escancara um dos episódios mais irresponsáveis já vistos na política de trânsito brasileira. Sob o falso discurso de “modernização” e “democratização do acesso à CNH”, o que se promove, na prática, é o esvaziamento completo do processo de formação de condutores, com redução da carga horária, flexibilização excessiva dos conteúdos e a banalização dos exames teóricos e práticos — tudo com um único objetivo: fazer o candidato passar de qualquer jeito, custe o que custar.
Não se trata de aperfeiçoar métodos pedagógicos ou incorporar tecnologia com responsabilidade. Trata-se de transformar a habilitação em um mero ato burocrático, desconectado da realidade brutal das ruas e rodovias brasileiras. O resultado previsível é óbvio: motoristas menos preparados, mais imprudência, mais acidentes e mais mortes. Em um país que já convive com números alarmantes de vítimas no trânsito, essa política não é apenas equivocada — é criminosa do ponto de vista social.
Por trás desse desmonte está a atuação obsessiva e autoritária do ministro dos Transportes, Renan Calheiros Filho, que passou a tracionar a medida a qualquer custo, como um projeto pessoal de poder e autopromoção. Quando argumentos técnicos falham, entra em cena a coerção. Presidentes de DETRANs, que deveriam zelar pela segurança viária e pela aplicação do Código de Trânsito Brasileiro, foram submetidos a uma sequência de pressões inaceitáveis. Muitos se acovardaram, revelando não apenas fragilidade institucional, mas uma constrangedora falta de capacidade técnica e independência.
Quando os DETRANs, amparados pelo CTB, ousam contrariar sua vontade, o ministro abandona qualquer verniz institucional: liga diretamente para diretores em chamadas de vídeo, inclui governadores nas conversas e parte para ameaças veladas de intervenção por meio da AGU. É a política do medo travestida de gestão. Um atropelo deliberado de requisitos legais, técnicos e federativos, substituídos pela lógica do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
Paralelamente, Renan Filho aciona a imprensa para fabricar factoides, tentando legitimar suas ações com uma retórica vazia de modernidade, inovação e avanço. Puro blefe. Um discurso publicitário que não resiste a uma análise minimamente séria dos impactos reais da medida. Trata-se de propaganda para encobrir um projeto populista e perigoso.
Os métodos empregados lembram, sem disfarces, os de um conhecido ministro do Supremo: ausência de limites legais, imposição da vontade pessoal e desprezo pelas instituições. Um comportamento típico de “coronel alagoano”, à imagem e semelhança do pai, “tocando o gado”, tratando gestores públicos como subordinados e a lei como mero detalhe inconveniente.
Não por acaso, cresce a alcunha que acompanha sua atuação: “Príncipe da Morte”. Um apelido duro, mas coerente com políticas que ignoram deliberadamente o impacto direto sobre vidas humanas. Flexibilizar a formação de condutores em um país que sangra no trânsito não é coragem nem progresso — é irresponsabilidade travestida de ousadia.
Enquanto discursos vazios circulam nos gabinetes e manchetes, o asfalto continua cobrando seu preço. E cada morte evitável no trânsito passa a carregar também o peso dessas decisões políticas tomadas à força, sem técnica, sem legalidade e sem qualquer compromisso real com a vida.