Com base na média diária de 17 mortes registradas nas rodovias federais em 2024, é possível estimar que, entre 19 de dezembro — sexta-feira que antecedeu o Natal — e 4 de janeiro, período marcado por intenso deslocamento de pessoas para as festas de fim de ano, aproximadamente 290 pessoas devem morrer nas rodovias federais brasileiras.
Mas este número poderá atingir o total de 500 pessoas mortas, considerando os feridos graves que vêm a óbito em até 30 dias. A estimativa é do SOS Estradas analisando os dados de 2024 e a tendência confirmada nos últimos dias pela Polícia Rodoviária Federal (PRF).
No mesmo intervalo (17/12/25 – 04/01/26), considerando a média diária de 231 feridos em 2024, o número de vítimas lesionadas pode chegar a 3.927 pessoas. Estudos epidemiológicos indicam que cerca de 5% dos feridos em sinistros de trânsito evoluem para óbito até 30 dias após o evento, o que pode representar quase 200 mortes adicionais.
Com isso, a estimativa é de que cerca de 500 pessoas morram em apenas 17 dias, no período entre 19/12/2025 e 04/01/2026, em decorrência de sinistros apenas nas rodovias federais, entre óbitos na pista e mortes nas ambulâncias ou hospitais. Permaneceriam vivas, porém com sequelas de diferentes gravidades, cerca de 3.500 pessoas feridas.
Dados recentes indicam agravamento da letalidade
Entre os dias 16 e 23 de dezembro, a Polícia Rodoviária Federal (PRF)registrou 1.861 sinistros nas rodovias federais, com mais de 2.100 pessoas feridas e 163 mortes. A média diária de óbitos nesse período atingiu 20 mortes por dia, valor significativamente superior à média diária de 17 mortos registrada ao longo de todo o ano de 2024.
Os dados parciais também apontam aumento na média diária de feridos. Enquanto, em 2024, a média anual foi de 231 feridos por dia, nesse curto intervalo de dezembro a PRF já registrou 263 feridos diários, reforçando o cenário de agravamento da violência no trânsito.
Considerando os dados iniciais de 2025, divulgados pela PRF, por meio do sistema de Dados Abertos, tudo indica que, ao final da consolidação anual, o país poderá registrar novamente mais de 6 mil mortes nas rodovias federais.
Aumento de mortes revela fracasso da política de segurança viária
A análise dos dados das rodovias federais entre 2015 e 2024 evidencia que o Brasil não atingiu a meta de redução de 50% das mortes no trânsito, prevista para o período 2011–2020, compromisso assumido pelo país em acordo firmado com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a ONU.
Mais grave ainda é a tendência atual: tudo indica que o novo compromisso internacional para o período 2021–2030 também não será cumprido. Em vez de reduzir o número de vítimas, o país demonstra tendência de aumento de mortos e feridos, repetindo o fracasso da década anterior.
Vítimas fatais aumentaram nas rodovias federais a partir de 2019
A queda acentuada observada entre 2015 e 2018, após a adoção de nova metodologia de registro, foi interrompida em 2019, quando o governo federal promoveu o desligamento e posterior retirada dos radares da PRF. Entre 16 de agosto e 23 de dezembro de 2019, a PRF não aplicou nenhuma multa por excesso de velocidade, retomando a fiscalização apenas após determinação judicial.
Em 2020, houve leve redução das mortes em razão das restrições de circulação impostas pela pandemia da Covid-19. No entanto, já em 2021, mesmo com limitações ainda vigentes durante o verão, os dados voltaram a indicar crescimento da letalidade, tendência que se consolidou nos anos seguintes.
Número de mortos nas rodovias federais
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) — período de dez anos (2015–2024)
| Ano | Mortos |
|---|---|
| 2015 | 6.867 |
| 2016 | 6.398 |
| 2017 | 6.248 |
| 2018 | 5.274 |
| 2019 | 5.340 |
| 2020* | 5.292* |
| 2021 | 5.397 |
| 2022 | 5.441 |
| 2023 | 5.627 |
| 2024 | 6.160 |
* Período mais grave da pandemia, com restrições de circulação Fonte: PRF
A chegada de um novo governo revelou que, apesar do empenho dos policiais rodoviários federais, os Ministérios da Justiça e dos Transportes — responsáveis diretos pela política de segurança viária nas rodovias federais — não priorizaram a preservação de vidas no trânsito.
Como resultado, o número de vítimas continuou crescendo, ultrapassando novamente a marca de 6 mil mortos em 2024, pela primeira vez desde 2017. Em 2024 foi registrado aumento de 9,4% das mortes nas rodovias federais, em relação a 2023.
Mortes no trânsito aumentam em todo o país
A violência no trânsito não se limita às rodovias federais. Dados consolidados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2023 e 2024, o número de mortes no trânsito em todo o país aumentou 6,5%, passando de 34.881 para 37.150 vítimas, o que representa 2.269 mortes a mais em apenas um ano.
Dados do Ministério da Saúde — período de dez anos (2015–2024)
| Ano | Mortos |
|---|---|
| 2015 | 38.651 |
| 2016 | 37.345 |
| 2017 | 35.375 |
| 2018 | 32.655 |
| 2019 | 31.945 |
| 2020* | 32.716 |
| 2021 | 33.813 |
| 2022 | 33.894 |
| 2023 | 34.881 |
| 2024 | 37.150 |
Fonte: Ministério da Saúde *Período da pandemia com várias restrições de circulação
O aumento nacional, embora expressivo, foi inferior ao crescimento registrado nas rodovias federais, onde as mortes subiram 9,4% no mesmo período, passando de 5.627 em 2023 para 6.160 em 2024.
Esse cenário confirma o fracasso da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) na implementação do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), repetindo resultados insatisfatórios observados também no governo anterior.
Para o coordenador do SOS Estradas,Rodolfo Rizzotto, responsável pelo levantamento, os dados nacionais e das rodovias federais deixam claro que a redução da letalidade no trânsito não é prioridade dos governos.
“Nossa estimativa é de que, somando rodovias federais e estaduais, o número de mortos no período analisado ultrapasse 1.000 vítimas fatais. No caso do governo federal, se os ministros responsáveis pelas rodovias e o secretário responsável pelo PNATRANS fossem executivos de uma empresa privada, estariam todos demitidos.”
Fonte: Estradas.com.br